quais ações fizeram com que cada ser vivo que
por mim tenha passado durante esses anos
imediatamente lançasse olhares de
admiração ou reprovação?
sou, fui um cara do bem? não? um tolo, quem sabe?
não tenho sido extremamente gentil na
maior parte de meus atos? não, claro que não
mas e se... olhando por esse ou esse aspecto...
e meus arranjos de carinho, em quem
fizeram efeito? mas e se não busquei efeito algum?
e se fui arrebatado como na última sexta-feira
ao ver uma atriz jovem em cena despencando
todas as vezes em que ouvia
alguém dizer que a amava?
isso não foi o que de mais importante me
aconteceu nesse ano? não tenho como avaliar
acordar no dia seguinte já é uma
quantidade de milagre significativa, mas não
suficiente, não mesmo
e meus arrojos sexuais, não serão também
verdadeiros milagres?
e por que com essa ou aquela mulher?
por que mesmo com as quais eu preferia
morte, distância, até nunca mais?
mesmo com elas posso considerar o milagre?
qual delas me ajudou a esquecer
qual a querer mais, qual me ensinou novamente
a vida a vida a vida a vida, em qual me
currei ou adoeci, qual delas hoje eu sou?
será que tive mesmo aquelas que penetrei?
será que fui daquelas a quem disse querer
passar o resto da minha vida ao lado?
mas então por que não estou ao
lado dela nesse momento? terá acabado minha vida?
será que sempre vou querer lembrar de
nossos pios e arrepios, das corredeiras de
suor, da lama transparente do choro?
e mesmo se eu quiser lembrar, será que
vou conseguir? será que posso
afirmar não ter sido amado por aquelas
com as quais tomei um café ou um
sorvete no fim de tarde e isso foi tudo?
e isso foi mesmo tudo? olha, parece que
tenho motivos de sobra para ser feliz e
infeliz e feliz e infeliz
mas será que tenho motivos de
sobra para ser feliz? e infeliz? se sim
deverei a quem, digo, a felicidade? ou a infelicidade?
aos amigos? a minha pequena biblioteca?
ou foi que os amigos me condenaram aos
livros quando eu já não suportei mais ter amigos?
e por que não suportei?
por que de fato não suportei?
ou por que me tornei incompetente para fazer
novas amizades? mas, oras bolas, não é que
amizades verdadeiras toleram a incompetência?
os livro verdadeiros toleram leitores incompetentes?
mas os livros são verdadeiros?
se não, poderei eu dizer que alguns livros são
meus bons amigos? mas eles, os livros, por acaso
não me condenaram ao me transformarem num
obsessivo por literatura? amigos fazem isso?
e se sou um obsessivo por literatura
por que ainda não li uma linha sequer do
“em busca do tempo perdido”?
e o tempo, digo, o tempo que passei não lendo
o “em busca do tempo perdido?”, mas
fazendo outras coisa, ou mesmo não fazendo nada
esse tempo foi mesmo perdido?
mas é possível que não estejamos fazendo
nada se ainda estamos vivos, ou não fazer
nada é só uma maneira de dizer?
e para que dizer? você acha que alguém te escuta
só porque possui duas orelhas?
ou... e, afinal, o que isso importa, não é mesmo
não é mesmo, não é mesmo?


